domingo, 16 de agosto de 2009

A arte de se fazer respeitar ou Tratado sobre a honra

Quem integrou tal aristocracia no seu íntimo, ou seja, o homem culto, chegará logo ao ponto em que não lhe passará mais pela cabeça revidar a manifestação da rudeza alheia e pôr-se em pé de igualdade com seu autor; não conhecerá nenhuma outra disputa a não ser a da argumentação, mas recorerá à violência física - que pode emanar diferentemente tanto da natureza inanimada como dos animais e dos homens, movidos por um impulso animal -, com a precaução e a força que são requiridas para detê-la e evitá-la, quando nada mais houver a fazer. Mas não se trata de uma questão de honra, e sim de sua tranquilidade.

Em suma, em se tratando de injúrias ou insultos, seja por palavras ou atos, assevero que esses podem irritar e aborrecer um homem sensato, mas de modo algum tocam a sua honra, porque essa consiste na opinião que se tem sobre ele e que não pode alterar-se por coisas que lhes são exteriores, a não ser no caso de pessoas de mente muito fraca, cuja opinião não conta. Um homem sensato pode, por conseguinte, extravasar sua irritação ou seu desgosto por meio de uma reação proporcional ao fato, mas deve ser mais tolerado como fraqueza humana do que como um dever que lhe é exigido para salvar sua honra. E, portanto, se contrariamente ele pensa o suficiente para não se importar, sua honra, em vez de sofrer as consequências, poderá até mesmo ganhar com isso.

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de se fazer respeitar ou Tratado sobre a honra. 1851.