"(...) tendo aprendido já no colégio que não se poderia imaginar nada de tão estranho e de tão pouco crível que não tivesse sido dito por algum dos filósofos; e depois disso, ao viajar, tendo reconhecido que todos os que têm sentimentos muito contrários aos nossos nem por isso são bárbaros nem selvagens, mas que vários usam tanto ou mais que nós a razão; e tendo considerado como um mesmo homem, com seu mesmo espírito, tendo sido criado desde a infância por franceses ou alemães, torna-se diferente do que seria se tivesse sempre vivido entre chineses ou canibais; ecomo, até nas modas de nossas roupas a mesma coisa que nos agradou há dez anos, e que talvez nos agrade também daqui a menos de dez anos, parece-nos agora extravagante e ridícula; de sorte que é muito mais o costume e o exemplo que nos persuadem do que algum conhecimento certo e, não obstante, a pluralidade de opniões não é uma prova que valha para as verdades um pouco difíceis de descobrir;porque é muito mais verossímil que um só homem as tenha encontrado do que um povo interio; eu não podia escolher ninguém cujasopniões parecessem preferíveis as dos outros, e achei-me como que forçado a empreender conduzir-me a mim mesmo."
DESCARTES, René. Discurso do método. 1637
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