Por Larissa Warnavin
Meu propósito neste instante, antes de qualquer outra sentença, é de buscar um tema para o que nos propusemos nesta journée gèographique : O que se veio buscar na Paris ? O que se veio buscar enquanto ser humano? O que se veio buscar enquanto brasileira? O que se veio buscar enquanto geógrafa? O que se veio buscar enquanto buscadora? Pesquisadora! Aquela buscadora de verdades? Ou buscadora de respostas? Fico com a segunda, porque, no momento, estou um tanto fatigada de verdades, prefiro algo mais flexível. Ou seja, exatamente o oposto do que sugere o título do texto, apresentarei percepções, não verdades, deixo as verdades para os cientistas mais convictos da existência delas. Acredito que me caiba discorrer um pouco sobre cada um desses questionamentos, e talvez, ao final, terei respostas satisfatórias, ou no mínimo intrigantes. Voilà:
1 - O que se veio buscar na Paris? Ou, quem era Paris nessa história?
Para mim, Paris é sonho de menina, é rota de fuga, é curiosidade intelectual, é mistério linguístico, Paris é ego , ou um dia foi. Desde sempre essa cidade me provocou algum tipo de curiosidade, seja pela arte, pelo glamour, pelo cinema, pelo seu cotidiano, pela ciência, pelas histórias que ouvia, pelas histórias de liberdade, igualdade e fraternidade. Já havia alguns anos que gostaria de vir à Paris, primeiro pelo encantamento com a língua francesa, depois, pelo encantamento com a ciência geográfica. Os anos passaram, e aqui estive pela primeira vez em 2010, na qualidade de turista categoria G (Turista Geógrafo), mas me surpreendi ao perceber que frente à Paris, minha categoria de Turista era A (Turista Amador), porque nenhum pouquinho daquele conhecimento que tinha sobre a geografia daqui ou de acolá, e mesmo o conhecimento da língua e da cultura, eram capazes de me dar alguma explicação daquilo que senti, foi um apaixonamento, que acreditava ser irrevogável.
2- O que se veio buscar enquanto ser humano? Ou, o que minha humanidade queria aqui?
Depois daquela visita, queria restar, queria voltar, queria viver ali naquela Paris dos sonhos de menina e dos turistas categoria A, queria viver a ilusão da lumière ! A partir daí, acreditava que todo ser humano deveria ter a oportunidade de viver uma vida digna em Paris. Eu, na maior humanidade, motivada pelo ideal de cidade, contribuí fortemente para que hoje eu estivesse sentada nessa cadeira da Maison du Brèsil. Porque minha humanidade partia de um ideal. E ideais, a gente sabe: não existem materialmente, quem dirá universalmente.
3 - O que se veio buscar enquanto brasileira? Ou, que diferença faz uma nacionalidade?
Quando eu era um pouco mais jovem (perceba a ironia), eu achava lindo ser europeu. Eu gostava do Brasil, de ser brasileira, mas tudo da Europa parecia melhor, aquela imagem que me venderam e eu comprei sem questionar naquele momento juvenil. Viajei um pouco do Brasil, viajei um pouquinho do Sul da América Austral e conheci uma partezinha do velho continente, achei tudo lindo! Mas uma coisa foi ficando cada vez mais evidente: “você é o lugar de onde você vem”, aí me dizem: “Nossa! Isso é jeito de geógrafo-cientista falar de identidade cultural?!”. É, é jeito sim, de simplificar algo que todo ser humano constata ao atravessar algum tipo de fronteira, pode ser a fronteira do quarto para a cozinha, entre cidades, ou entre países. Aquela história de “viver sem fronteiras” é balela! E muitos brasileiros viram isso com a crise das companhias telefônicas. Enfim, sabendo dessa distinção, tive mais vontade de viver como brasileira e com brasileiros aqui em Paris. Vim disposta a viver Paris como brasileira e não me afrancesar. Foi uma opção tomada conscientemente, aceitar e aprender a cultura francesa, sem esquecer minha origem e os predicados dela.
4 - O que se veio buscar enquanto geógrafa? Ou, que diferença faz a identidade?
Claro que, não por acaso, a motivação pessoal de passar um séjour na França casava perfeitamente com meus objetivos acadêmicos. Então, construí um projeto de tese que objetivava realisar uma aproximação teórica entre a geografia brasileira e francesa no trato da questão ambiental. Conhecendo um pouco da história da institucionalização das ciências humanas no Brasil, ao menos pelo que contam os livros, estas foram fundadas principalmente por pesquisadores franceses. Partindo desse ponto, queria compreender como o discurso ambiental da geografia brasileira foi influenciado por esse mesmo discurso da geografia francesa. Para mim algo parecia claro, existia um intercâmbio entre pesquisadores de lá (Brasil) e de cá (França), e era nítido que a influência francesa era dominante naqueles estudos de geografia. Para meu espanto, ao pesquisar um pouco mais a fundo, percebi que o ecletismo da geografia brasileira no trato do meio físico era de uma variedade excepcional, não só pela questão corológica , mas pela criatividade de seus pesquisadores ao congregar diversas teorias e fazer um mélange que identificava a geografia brasileira como única, por isso era brasileira, como eu, porque tinha algo que a fazia distinta das outras, algo que a abrasileirava.
5 - O que se veio buscar enquanto buscadora? Ou, que rumo a pesquisa científica tomou?
Com essa descoberta, de uma geografia brasileira autônoma (informação que talvez fosse ultrapassada ou obvia para alguns), para mim era uma nova e resplandecente forma de apreender o conhecimento geográfico, porque foi a minha descoberta pessoal, de todas as outras partes minhas que já escrevi aqui, e não a descoberta que li em um livro e citei. Percebo que meu cérebro cresceu 1 bilionésimo . Chegando à Paris, me deparo com parte da produção da geografia francesa, aquela geografia que também é autônoma, mas é automática, porque é reproduzida há muito tempo da mesma forma e aceita pouca ou nenhuma influência exterior. Para minha surpresa, todos aqueles grandes ideais de ciência francesa, ao menos das ciências humanas, se desfizeram no ar. Na universidade observei um diálogo fechado; nas salas de aula notei e anotei pouco debate e muita reprodução. Aí foi difícil não pensar na ideia de colonialismo científico, e que a colonizada geografia brasileira estivesse conquistando outros mares, enquanto a geografia da metrópole restava lá com toda a sua autoridade. Digo isso na visão de colonizada, mas ainda estou em busca de encontrar uma nova forma de olhar essas diferenças, sem que elas pareçam estar em uma escala de valores, sem que uma geografia se pareça melhor que a outra. E claro, essa constatação me fez observar que em todas as instâncias eu estava sendo chamada a observar a natureza humana, e que o que diferenciava essas geografias eram os pesquisadores que a construíram, esses por sua vez traziam na bagagem suas matrizes étnicas e culturais, logo, toda a minha visão de geografia e dos geógrafos foi se tornando diferente, e ainda não entendo o impacto disso em minha tese, mas já percebo os impactos em minha vida.
Onde eu chegarei com essa história de não dito?
Ao fim desse sejour , eu revogo meu apaixonamento por Paris, não desiludida, talvez mais lúcida. Penso que a cidade das luzes, por politesse , tenha me dado um pouco mais de lucidez, por isso declaro a ela o meu amor. Ela é feita para turistas de todos os níveis, porque turistas vem e passam. Mas quem a habita compreende o que ela tem de mais mágico e real, porém mágica, só é encantadora até você saber como ela funciona. Pessoas doentes nas ruas, falta de compaixão, impaciência, muitos dias cinzas de outono/inverno... Não digo que não haja o que é bom e belo, mas estou escrevendo o indizível, aquilo que não te contam, aquilo que apenas alguns escrevem. Porque parte do meu choque de realidade, diz respeito a tudo aquilo que ouvi de pessoas que viveram aqui, que vendem um ideal de perfeição, (sem compreender que perfeição é o todo), que continuam contando a história dos vencedores, não retiro o valor de suas histórias, porém tais histórias, como quaisquer outras contadas, são parceladas. Donc , pra tentar uma história pareille , contarei essa outra côté , que envolve dificuldades, desafios e como eles completam o todo de uma vida perfeita, assim como são todas as vidas possíveis e existentes.
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